Comunicação pública se reinventa em meio a tragédias meteorológicas, algoritmos e desinformação
Fórum nacional reúne secretários estaduais e especialistas para discutir protocolos de crise e novas plataformas digitais
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Nos últimos anos, a gestão da informação pública passou a enfrentar desafios inéditos. Eventos meteorológicos extremos, novas formas de consumo de conteúdo nas redes sociais e cenário de desinformação colocam as equipes de comunicação dos governos diante de um ambiente cada vez mais complexo.
Esse contexto deu o tom do segundo dia do 9º Fórum Nacional das Secretarias Estaduais de Comunicação, realizado em Porto Alegre nesta terça-feira (10/3). Ao longo da programação, gestores e especialistas discutiram três frentes que hoje pressionam diretamente a atuação das secretarias. A comunicação em situações de desastre, a disputa por atenção nas plataformas digitais e os limites jurídicos da publicidade institucional em ano eleitoral.
Quando a comunicação vira parte da resposta à crise
A manhã começou com a apresentação do secretário de Comunicação do Rio Grande do Sul, Caio Tomazeli, que compartilhou a experiência do Estado na construção de protocolos de comunicação após as enchentes históricas de 2024. A tragédia levou à criação de um modelo estruturado de gestão da informação em crises, agora apresentado como referência para outras administrações estaduais.
Na abertura da plenária, o presidente do Conselho Nacional das Secretarias Estaduais de Comunicação, Frederico Souza, destacou o simbolismo de discutir o tema justamente na capital gaúcha. “Para nós, que acompanhamos aquele momento com os colegas da comunicação do Rio Grande do Sul, é extremamente simbólico que este evento esteja ocorrendo justamente aqui”, afirmou.
Segundo Souza, o episódio revelou com nitidez a dimensão institucional da comunicação pública em contextos extremos. “Não se tratava apenas de uma crise de reputação de governo ou de liderança. Era, sobretudo, o papel da comunicação pública como instrumento de orientação à população, de combate à desinformação, de geração de previsibilidade e de sustentação da confiança em um momento extremamente delicado”, explicou.
Tomazeli afirmou que o objetivo da apresentação foi dividir aprendizados que possam ser úteis a outros governos. “Mais do que apresentar propriamente um case, quero compartilhar as consequências e os aprendizados da experiência que vivemos no Rio Grande do Sul. O que construímos a partir desse período difícil pode servir de contribuição para as secretarias de comunicação de todos o país”, disse.
Durante a crise, o governo gaúcho estruturou gabinetes de crise centralizados e regionais, criou uma central de produção de informações de utilidade pública e montou um núcleo específico de enfrentamento da desinformação com apoio de agências de checagem.
A mobilização nacional em torno do Estado produziu, inclusive, obstáculos operacionais inesperados. “Houve momentos em que tivemos que pedir para reduzir o envio de doações, porque simplesmente não conseguíamos dar conta de armazenar e distribuir tudo o que estava chegando”, relatou o secretário.
A experiência levou ainda à criação do Plano Rio Grande. Liderado pelo governador Eduardo Leite, trata-se do programa de Estado criado para proteger a população, reconstruir o Rio Grande do Sul e torná-lo ainda mais forte e resiliente, preparado para o futuro. Para Tomazeli, o principal aprendizado está na centralidade da comunicação para a própria capacidade de resposta do governo.
“Comunicação não é apenas comunicar. É reduzir danos. É um conjunto de informações que envolve várias camadas e precisa ser conduzido com estratégia. Se você não tem estratégia, acaba fazendo parte da estratégia de alguém”, ressaltou.
A disputa por atenção nas plataformas digitais
Na sequência, o foco do debate migrou para o ambiente digital. Executivos da plataforma Kwai apresentaram aos gestores estaduais o potencial dos vídeos curtos como ferramenta de comunicação institucional e aproximação com o cidadão.
A apresentação mostrou como o consumo acelerado de conteúdos audiovisuais vem alterando a forma como a população busca informações sobre políticas públicas e serviços governamentais.
Para Thales Bueno, representante da plataforma, o desafio das equipes de comunicação está em equilibrar a rotina administrativa com a necessidade de competir por atenção em ambientes cada vez mais disputados.
“Quando falamos da realidade da comunicação pública, especialmente em Estados grandes, sabemos que existe um desafio permanente. No dia a dia, é preciso conciliar gestão com integridade da informação e, ao mesmo tempo, comunicar serviços públicos à população”, afirmou.
Segundo ele, compreender o funcionamento dos algoritmos e das dinâmicas de consumo digital deixou de ser um conhecimento periférico e passou a integrar a estratégia de comunicação dos governos. Nas plataformas de vídeo curto, o conteúdo é organizado a partir do comportamento do usuário, o que amplia o alcance de mensagens quando elas dialogam com interesses reais da audiência.
Outro ponto destacado foi a força do regionalismo no engajamento digital. Conteúdos que incorporam referências culturais locais tendem a gerar maior identificação com o público e ampliar a circulação de informações públicas.
Nesse contexto, a criação de perfis institucionais verificados foi apontada como medida importante para reforçar credibilidade. “Ter um perfil verificado é fundamental porque o usuário consegue identificar rapidamente que aquela conta é oficial e confiável, o que aumenta a credibilidade da informação”, detalhou Bueno. Ainda segundo ele, a aproximação entre plataformas digitais e gestores públicos pode ter peso decisivo em situações de emergência, quando o alcance rápido da informação oficial se torna vital.
Para Alana Pereira, que também representa a plataforma, a articulação institucional prévia facilita a resposta em momentos críticos. “Quando existe uma relação institucional entre a plataforma e os órgãos públicos, fica muito mais fácil coordenar ações em situações críticas”, observou.
A responsabilidade de quem comunica o Estado
Os debates em Porto Alegre deixaram claro que a comunicação pública passou a operar sob pressão permanente. O campo precisa responder a eventos extremos, disputar atenção em plataformas orientadas por algoritmo e, ao mesmo tempo, respeitar limites legais mais rígidos em períodos sensíveis para a democracia.
Nesse contexto, comunicar deixou de ser apenas uma etapa de divulgação administrativa e se tornou parte da capacidade do Estado de orientar, proteger e dar previsibilidade à vida pública.
Texto e edição: Secom
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